
Declaração de Bens
Texto de Hélio Fraga
O pai moderno, muita vezes, perplexo e angustiado, passa a vida inteira correndo como um louco, em busca do futuro, e esquecendo-se do agora. Nessa luta, renuncia ao presente. Com prazer e orgulho, a cada ano, preenche a sua declaração de bens para o imposto de Renda. Cada nova linha preenchida foi produto de muito trabalho. Lotes, casas, apartamentos, sítios, casa de praia, automóvel do ano – tudo custou dias, semanas, meses de luta. Mas ele está sedimentando o futuro de sua família. Se partir de repente, já cumpriu sua missão, e não vai deixá-la desamparada.
Esse homem se esquece, que a verdadeira declaração de bens, o valor que efetivamente conta, está em outra página do formulário do Imposto de Renda – naquelas modestas linhas, quase escondidas, onde se lê: Relação de dependentes. São os filhos que colocou no mundo, A QUEM DEVE DEDICAR O MELHOR DO SEU TEMPO. Os filhos, novos demais, não estão interessados em propriedades e no aumento da renda.. Eles só querem um pai para conviver, dialogar e brincar. Os anos passam, os meninos crescem, e o pai nem percebe, porque se entregou de tal forma a construção do futuro, que não participou de suas pequenas alegrias; não os levou ou buscou no colégio; nunca foi a uma festa infantil; não teve tempo para assistir à coroação de sua filha como Rainha da Primavera. Um executivo não deve desviar sua atenção para essas bobagens. São coisas para despreocupados.
Há filhos órfãos de pais vivos, porque estão “entregues” - o pai para um lado, a mãe, para o outro, a família desintegrada, sem amor, sem dialogo, sem convivência. É essa convivência que solidifica a fraternidade entre irmãos, abre caminho no coração, elimina problemas e resolve as coisas na base do entendimento. Há irmãos crescendo como verdadeiros estranhos, que só se encontram de passagem em casa. E para ver os pais, é quase preciso marcar hora. Depois de uma dramática experiência pessoal e familiar vivida, a mensagem que eu tenho para dar é: NÃO HÁ TEMPO MELHOR APLICADO DO QUE AQUELE DEDICADO AOS FILHOS.
Dos 18 anos de casado, passei 15 absorvido por muitas tarefas, envolvidos em varias ocupações e totalmente entregue a um objetivo único e prioritário: construir um futuro para meus três filhos e minha mulher. Isso me custou longos afastamentos de casa: viagens, estagio, cursos, plantões no jornal, madrugadas no estúdio da televisão...Uma vida sempre agitada, tormentosa e apaixonante, na dedicação da profissão – que foi, na verdade , mais importante que minha família.
Agora estou aqui com o resultado de tanto esforço: construi o futuro penosamente e não sei o que fazer com ele, depois da perda de Luiz Otávio e Priscila. De que vale tudo que eu juntei, se estes filhos não estão mais aqui, para aproveitar isso com a gente? Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido agora por um incêndio e, desses bens todos, não restasse nada mais alem do que cinzas, isso não teria a menor importância; não ia provocar o menor abalo em nossa vida, porque a escala de valores mudou e o dinheiro passou a Ter um peso mínimo e relativo em tudo.
Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura de meu filho que se drogou e morreu; não foi capaz de evitar a fuga de minha filhinha, que saiu de casa e prostituiu-se, e dela não tenho mais noticias, para que serve? Para que ser escravo dele ?
Eu trocaria – explodindo de felicidade – todas as linhas de declaração de bens por duas únicas que tive de retirar da relação de dependentes: os nomes de Luiz Otávio e Priscila. E como doeu tirar essas linhas na declaração de 1985. Luiz Otávio morreu aos 14 anos e Priscila fugiu um mês antes de completar 15.
fonte: Wagner Dias
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